As questões ambientais fortemente presentes na sociedade de hoje envolvem todos os setores acadêmicos. Não estão mais concentradas nos departamentos de Geografia, Biologia e Ecologia e ganham espaço em outras disciplinas. É o caso do Programa EICOS de Pós-Graduação em Psicologia de Comunidades e Ecologia Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que promoveu o Seminário do Observatório de Parques Estaduais e Federais do Estado do Rio de Janeiro no dia 10 de dezembro no Auditório Dourado do Campus da Praia Vermelha. A Linha 1 do EICOS focaliza-se em Comunidades, Desenvolvimento, Meio Ambiente e Inclusão Social e concentra-se nas subjetividades que envolvem a relação sociedade/natureza, gestão participativa e desenvolvimento sustentável. O processo ético de construção de cidadania e inclusão social foi enfatizado em relação aos Parques do Estado do Rio. A preocupação principal é com informação acadêmica de qualidade acessível à sociedade. “Existe o papel social da universidade e o assunto ambiental está presente. Nosso grupo de pesquisa tem um olhar crítico às políticas públicas e busca qualidade nas informações. Gestão participativa e inclusão social é nosso tema central e também destaque em todos os encontros internacionais para se pensar a proteção natural. O grupo de pesquisa dá atenção especial à relação sociedade/natureza como fator essencial para salvar a biodiversidade planetária.”, afirmou Marta de Azevedo Irving do Programa EICOS. Hoje a sociedade se preocupa muito mais com a conservação. Todos os pesquisadores apontaram o desenvolvimento da comunicação como o caminho mais importante.
No lugar da repressão, a participação e a inclusão social
Pesquisadores querem conhecer melhor os atores que envolvem os parques estaduais e federais do Estado do Rio, tendo como objetivo a construção de novas práticas de gestão e romper com a dicotomia entre a sociedade e a natureza. O EICOS está inaugurando um site interativo para alimentar informações sobre essa área. O diretor do Departamento de Psicologia da UFRJ, Marcos Jardim, ainda destacou a enorme importância dos estudos de psicologia se dedicarem à questão ambiental e ainda lembrou da tragédia recente de Santa Catarina com enchentes e deslizamentos de terra em que grande parte dos projetos de reconstrução, segundo ele, estão repetindo os erros do passado. “Temos que rever os modelos, aumentar o mosaico de percepções”, defendeu Marcos ao se referir à relação sociedade/natureza. O EICOS, em parceria com especialistas em informática da França, está também desenvolvendo um programa que é um jogo lúdico que serve como ferramenta para a discussão do processo de gestão e das estratégias de negociação que envolvem as Unidades de Conservação. “Trata-se de um cenário fictício baseado em Sistemas Geográficos de Informação (SIG) em que um acordo tem que surgir. A pontuação é feita através da participação e dos resultados de conservação e inclusão social alcançados”, explicou o professor - geógrafo e planejador de gestão ambiental, Davis Gruber Sansolo. O software se chama SINPARC e estará disponível no início de 2009. O professor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Gian Mário Giuliani, falou da importância de desmistificarmos processos de gestão através de novas relações sociedade/natureza. Gian estuda os casos de parques do Estado e é membro da Câmara Técnica de Pesquisa do Mosaico Central Fluminense de Unidades de Conservação. Seu interesse é pela sociedade humana e sua relação de transformação, destruição e construção da natureza. “Tivemos a tendência de acreditar que os recursos naturais são infinitos, mas temos limites. Toda a nossa relação com a natureza tem base na história. A história do Brasil, por exemplo, deixou de lado expressiva parte da população (...) A sociedade capitalista é predatória com o objetivo de crescimento econômico e a força do mercado predomina (...) A conservação requer uma visão de sistema, um pensar complexo, a inovação com reconversão de valores”, destacou Gian. Ele ainda ressaltou que a racionalidade muitas vezes é deformada pelos mecanismos de poder e lembrou Foucault que disse que um território é altamente influenciado pelos fatores político-jurídicos. Citou também o geógrafo Milton Santos que afirma que o “território é o chão mais a identidade (...) O território é o fundamento do trabalho, o lugar da residência, das trocas materiais e espirituais e do exercício da vida”. Os parques envolvem a criação de um novo território com regras. Incluem também aspectos simbólicos importantes. Como aponta o professor Gian, os parques incluem desterritorialização e territorialização. Fornecem serviços ecológicos e culturais. O pesquisador chamou a atenção para a extrema necessidade de aumentarmos os intercâmbios e a reintegração com as populações que são afetadas com a criação de uma Unidade. Marta Irving acrescentou que os parques pertencem à população e que o fator de inclusão social deve ser mais ressaltado. Alba Simon do Instituto Estadual de Florestas (IEF) defende o trabalho do EICOS como oportunidade de reflexão para aprimorarmos as gestões. A pesquisadora Frances Vivian Corrêa, também do EICOS, enfatizou a realidade do Estado do Rio que possui uma Mata Atlântica fragmentada, um enorme número de Unidades de Conservação (com a maior concentração de Unidades Federais), mas, ao mesmo tempo, a maior pressão antrópica do país com população concentrada, área metropolitana extensa e a vinda de novos investimentos de peso como o Complexo Petroquímico (COMPERJ) em fase de implantação. Trata-se, portanto, de uma região em que a gestão de Unidades de Conservação recebe muitas tensões. Nosso desafio maior é conseguir, além de implantar as áreas protegidas, efetivar o controle e a gestão com inclusão social. Como colocou bem Alba, temos que “modificar a política policialesca e trabalhar a participativa”. As Unidades de Conservação do Estado do Rio enfrentam problemas comuns como a falta de Planos de Manejo, ocupações irregulares, especulação imobiliária e depredações diversas. Construir uma gestão mais participativa é objetivo principal da política pública também. Iniciativa trabalhada por Gustavo Mendes de Mello, doutorando do EICOS. O IEF estabeleceu o Programa de Fortalecimento de Conselhos das Unidades de Conservação como meta primordial. Gustavo se preocupa muito com a inserção de “expectativas positivas” e o “fortalecimento dos espaços de diálogo”. “A meta para 2015 é termos em todas as áreas de proteção conselhos e sistemas de informação e participação eficientes”, destacou.
PETP: O PETP enfrenta um processo difícil e complexo que foi apontado por Eloise Botelho, aluna do EICOS. Em primeiro lugar, sua criação foi pouco trabalhada e divulgada nos meios de comunicação e com a sociedade. Muitos moradores da região desconhecem seus limites e as restrições para o uso de recursos naturais. O Ecoturismo necessita ser muito mais incrementado. O PETP é extremamente importante na formação do corredor do Mosaico Central Fluminense de Unidades de Conservação e como fornecedor de água para muitas pessoas. É um espaço altamente propício para pesquisas já que possui muitas espécies endêmicas nunca estudadas. “Os desafios principais são os diversos usos do solo: agricultura, ocupação urbana, especulação imobiliária, impactos como o COMPERJ”, argumentou Eloise. A pesquisadora contou que o Conselho está em reestruturação e existe mobilização de diversos atores. Foi também criada uma Câmara Técnica visando a revisão do Plano de Manejo. O PETP está sendo beneficiado com um acréscimo de novas áreas como a Área de Proteção Ambiental de Jacarandá e a Estação Ecológica do Paraíso. Os desafios na região do PETP são enormes, já que 90% do território ainda é composto por áreas particulares.