Comércio Justo e Consumo Consciente são ações cada vez mais adotadas em todo o mundo. A Economia Solidária é uma resposta e um desafio ao sistema capitalista que se torna inviável em termos sociais e ambientais. Hoje não podemos mais pensar em Desenvolvimento sem o adjetivo Sustentável e em Economia sem o adjetivo Solidária. Não podemos mais aceitar o capitalismo como óbvio, natural e permanente. Outras alternativas são possíveis e começam a ser construídas. Economia Solidária é produzir, vender, comprar e trocar sem levar vantagem e destruir o meio ambiente. Existem no Brasil milhares de empreendimentos solidários e os produtos podem ser encontrados em lojas, feiras, cooperativas, ONGs e eventos especiais. Aconteceu em Rio Branco, capital do Acre, de 26 a 30 de setembro a I Feira Panamazônia de Economia Solidária. Neste evento ocorreu também o Seminário Latino-Americano de Desenvolvimento Sustentável e Economia Solidária e alguns temas importantes foram debatidos como “Matriz Energética para a Amazônia”; “Desenvolvimento de Cadeias Produtivas”; “Sistema Brasileiro de Comércio Justo e Solidário” e “Cidade Solidária”.
Alternativas ao capitalismo como novas formas de crédito e moeda e o escambo foram discutidos e praticados durante a Feira. A sustentabilidade e a solidariedade foram apontadas como ações essenciais para a construção de um futuro melhor. O Acre foi o cenário perfeito para discutir esses assuntos. Terra de Chico Mendes que espalhou o pensamento solidário e as alternativas de sustentabilidade para os povos da floresta. Participaram do evento representantes de várias cooperativas e ações solidárias da América do Sul. A idéia é criar uma união latino-americana mais justa e parte de uma rede internacional de Economia Solidária. O objetivo é discutir um outro projeto de desenvolvimento e uma nova estratégia de inclusão das pessoas e jamais de exclusão ou exploração. Não bastam as iniciativas governamentais de melhoria da qualidade de vida, é necessário desafiar o modelo de produção capitalista baseado no lucro e na acumulação. A Economia Solidária é regida pelos valores da autogestão participativa.
O secretário nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho, Paul Singer, participou da cerimônia de abertura do evento e afirmou que “o socialismo de hoje é a economia solidária, é a alternativa possível ao capitalismo”. Paul Singer lembrou Chico Mendes e ressaltou o papel importante do Acre. “Chico Mendes foi uma reação dos atropelados pelo capitalismo que promove o desmatamento, destrói os meios de vida dos povos tradicionais e introduz a agricultura capitalista. Os seringueiros foram pioneiros da economia solidária. Chegou o momento de uma revolução anti-industrial”, enfatizou o secretário.
Coletivo e Solidário
Para a Economia Solidária acontecer necessitamos de organização, conscientização, mobilização e comunicação independente. “A economia solidária vem do princípio indígena onde tudo é coletivo e decidido em assembléia. Vejo um processo importante acontecendo de transformação. A economia do capitalismo não nos serve mais”, argumentou a indígena Macuxi de Roraima, Eleni Maruai. “O Capitalismo promove a destruição do meio ambiente e a corrupção. A economia solidária, por sua vez, constrói a dignidade do coletivo e a solidariedade” defendeu Homero Viteir do Equador. Homero é membro do Sistema Nacional de Comercialização Solidária do Equador que trabalha junto com os pequenos produtores rurais e artesanais e com crédito popular. “A economia solidária prioriza o ser humano atendendo a todas as necessidades, inclusive a econômica. Trata-se de uma proposta sem acumulação, exclusão e concentração” defendeu José Celso Carbonar de Tocantins. De várias formas a Economia Solidária desafia a economia formal capitalista e coloca a questão ambiental como fundamental. “Valores de consumo, desemprego e violência conseqüentes do neo-liberalismo precisam ser refletidos. Queremos um outro modelo de sociedade includente”, enfatizou Rosemary Gomes da Rede Intercontinental de Promoção da Economia Solidária (RIPES). Miguel Steffan das Lojas Mundo Novo e da Cooperativa de Consumo Popular e Solidário do Rio Grande do Sul ressaltou alguns desafios. “Não faltam consumidores para produtos solidários, falta logística. Temos que pensar como aproximar produtores e consumidores, como montar estruturas justas sem exclusão e sem intermediários. Como fazer o nosso produto não parecer um produto capitalista qualquer. Afinal fazemos tudo isso por convicção enquanto algumas empresas capitalistas fazer responsabilidade social como marketing”, apontou Miguel. Todos cobram do poder público mais participação no processo. Lembrando que o papel do governo, além de promover melhorias de logística e acesso à tecnologia, é um grande consumidor. O Estado é responsável por cerca de 20% do consumo nacional e segurança alimentar deve ser colocada como assunto estratégico e de soberania. Todo este movimento não é novidade, são mais de 60 anos de lutas. A base vem de outros movimentos sociais importantes como os de agricultores familiares, mulheres, ambientalistas, movimentos de inclusão social, quilombolas, extrativistas, contracultura e sindicais. As dificuldades são muitas para enfrentar um poderoso sistema financeiro, a concentração das grandes redes de produção e distribuição e a acumulação de capital. Falta mais diálogo, mais parcerias, mais informação e muita formação política. “Mais importante, não se trata apenas de comércio justo, mas de uma luta política e social”, destacou Daniel Tygel da Secretaria Executiva do Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES) (Veja fbes.org.br).
Cidade Solidária
Nos diversos seminários que aconteceram durante o encontro propostas energéticas como o biodiesel de mandioca, a energia solar (vantagens e dificuldades) e os biossistemas integrados (veja oia.org.br) foram apresentadas e debatidas. A Cidade Solidária baseada na sustentabilidade ambiental e na autogestão também mereceu destaque e será assunto principal em próximo encontro em Belo Horizonte. Foi questionado se existe realmente uma solução urbana. No campo da informática foi apresentado o “software livre” e suas vantagens.
Estes eventos servem como encontro, mobilização e para a formação de atores mais engajados, informados e competentes. “O capitalismo falhou com o seu consumismo desenfreado, a utilização irracional dos recursos do planeta, falhando em não atender necessidades básicas de habitação, alimentação, saúde, educação, vestimenta. A acumulação do capital promove a ganância, a corrupção e o crime. O acre é importante. Da luta dos povos da floresta floresceu uma geração de atores sociais extremamente qualificados na luta política. A história do Acre se resume em antes e depois de Chico Mendes e Jorge Viana. A economia solidária é uma economia pós-capitalista com a estratégia de superar o próprio capitalismo. As premissas estão na luta histórica dos trabalhadores contra a exploração do trabalho humano”, concluiu Ary Moraes do grupo de trabalho de relações internacionais do FBES.
Participe
Procure mais informações no site da FBES ou pelo telefone (61) 3322-3268. FBES é a instância nacional de articulação, debate, elaboração de estratégias e mobilização do Movimento de Economia Solidária do Brasil. Conheça também o trabalho da ONG Faces do Brasil (facesdobrasil.org.br) que atua na construção e implementação do Comércio Justo e Solidário no país. Principalmente, evite as grandes redes de supermercados, os produtos industriais de multinacionais, os alimentos e as bebidas artificiais, as embalagens, o automóvel, o consumismo e o desperdício. Procure participar e promover novas organizações de produção e serviços baseados na autogestão e na solidariedade